Vídeos mataram a estrela do rádio

Vídeos mataram a estrela do rádio

“Video Killed the Radio Star” foi um hit no finalzinho dos anos 70 e tem seu lugar garantido em qualquer lista de músicas de bandas de um sucesso só que se preze.

É uma das músicas mais grudentas que se tem notícia e imagino que o refrão já está ecoando na cabeça de alguns de vocês agora.

Parte do disco The Age of Plastic, do Buggles, um grupo de curtíssima duração, “Video Killed the Radio Star” é uma reflexão algo melancólica sobre o impacto da tecnologia na natureza do estrelato.

“Eles roubaram o crédito da sua segunda sinfonia / Reescrita por uma máquina numa nova tecnologia / E agora eu entendo seus problemas, veja você / Eu encontrei seus filhos / O que você disse para eles? / O vídeo matou a estrela do rádio”

Ironicamente, essa reflexão acontece dentro de um disco de música pop composta como uma sequência de jingles e sons sintéticos que eram a tecnologia de ponta na produção musical na época.

A história do cantor da era do rádio, tornado obsoleto pela TV, chegou ao número 1 em diversos países da Europa (Trevor Horn, um dos integrantes do Buggles, apontou Kraftwerk como uma das inspirações da visão futurista do disco, o que é uma desculpa para linkar esse texto).

Em 1 de agosto de 1981, a MTV entrou no ar, então o primeiro canal de televisão dedicado 100% a vídeos de música. O primeiro clipe da nova rede também era uma declaração das suas aspirações: “Video Killed the Radio Star“.

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A ascensão ao estrelato de Jeniffer Ringley

“Video Killed the Radio Star” foi também o vídeo número 1 milhão a ser exibido na MTV, em 27 de fevereiro de 2000. Muita coisa mudou entre uma exibição do vídeo e outra.

Em 1996, Jeniffer Ringley comprou e instalou no seu dormitório universitário uma webcam, um equipamento que estava começando a se popularizar então.

Como um desafio para os seus conhecimentos de programação, Jeniffer escreveu um script pelo qual a câmera faria um upload de imagem a cada 15 minutos. Eventualmente, o projeto cresceu e passou a incluir quatro câmeras e atualizações a cada três minutos. Essa é a primeira delas.

Foi um sucesso. No auge, o site JenniCam tinha sete milhões de visitas por mês. As principais publicações do mundo escreveram matérias sobre o tema. Um canal do IRC reunia fãs, outro site compilava só as imagens dos pés da jovem.

Acadêmicas feministas teorizaram que JenniCam representava “a dialética complexa entre a mulher como sujeito e a mulher como objeto, como consumidora e consumida”.

A expectativa de algo sexual acontecendo sem dúvida era parte do atrativo da proposta. Jeniffer, inclusive, protagonizou algumas cenas mais quentes em alguma ocasião. Mas, na maior parte do tempo, o site mostrava um quarto vazio ou alguma outra coisa só um pouco menos tediosa.

Outra parte da receita do sucesso pode ser entendida se pararmos para pensar no que estava disponível na internet na época, através de acessos discados. O que não era muita coisa, quase nada para dizer a verdade.

O mundo orwelliano voluntário criado por Jennifer foi um pequeno adiantamento do zeitgeist dos próximos anos. Em 1999, uma produtora de televisão holandesa colocou no ar a primeira versão do Big Brother.

O programa, com a sua piscadela irônica para o grande líder que tudo controlava através de câmeras em todas as casas no romance 1984, de George Orwell, se tornou um sucesso mundial com um total de 387 edições em 54 países.

Existe inclusive um Big Brother na Albânia, onde mesmo enfrentando as dificuldades de selecionar os participantes entre apenas 2,8 milhões de pessoas no pequeno país do leste europeu, os produtores conseguem oferecer entretenimento em nível similar ao da versão brasileira.

O “reality show”, formato televisivo constituído pelo Big Brother, é hoje uma das fundações estilísticas da indústria do entretenimento.

É possível ver programas do tipo colocando grupos de pessoas anônimas em todo tipo de situações, indo desde a luta pela sobrevivência de um casal pelado numa ilha, até a tentativa de recuperação de senhoras com muitos gatos, passando pela possibilidade de ser demitido de uma empresa pelo homem que viria a ser o presidente dos Estados Unidos.

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Todo mundo é Jeniffer Ringley e isso não é mais o suficiente

Jeniffer Ringley desligou sua última câmera e sumiu do mapa em 2003. Foi um timing bem apropriado, porque naquele mesmo ano foi criado, nos Estados Unidos, o MySpace e, no começo do ano seguinte, seria lançado o Facebook.

A popularização das redes sociais é o marco divisório entre a internet da JenifferCam, hoje em dia conhecida como internet 1.0, e a internet atual, chamada de 2.0.

O resultado da mudança é que, hoje, a exposição da vida pessoal à observação de desconhecidos não é mais uma atração inusitada: é mais ou menos a regra. Expor é compartilhar, bisbilhotar é seguir, ou, nos casos mais sérios, “stalkear”.

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Em paralelo com a ascensão das redes sociais, que criaram um modelo de negócio baseado em acumulação de informação pessoal em troca de uma plataforma de publicação e hospedagem de conteúdo, um outro ator importante surgiu na jogada: o smartphone.

O smartphone, tal e como nós conhecemos hoje, é um acontecimento relativamente recente, com o primeiro iPhone, assim como o primeiro Android. Em 2016, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 77% das pessoas já tinham algum modelo de aparelho do tipo.

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Com um smartphone, ficou muito fácil postar conteúdos e, chave para a nossa conversa aqui, gravar vídeos. Gravações amadoras de todo tipo de acontecimentos se tornaram uma constante nos feeds das redes.

As plataformas de divulgação estão aí, assim como o equipamento. Tendo as condições técnicas para isso acontecer, costuma aparecer alguém para levar as coisas para um outro nível.

Paul Denino, um jovem residente de Los Angeles, de 23 anos, é um representante da tribo de Jeniffer Ringleys do século XXI.

Conhecido como Ice Poseidon, Denino começou sua carreira, em 2013, fazendo streaming no seu quarto pelo Twitch a partir das suas atuações em um jogo online chamado RuneScape.

Depois de três anos dentro de casa transmitindo seus jogos online, Denino voltou a sair, para caçar Pokemons durante a febre do Pokemon Go.

Só que ele seguiu fazendo streaming, com uma webcam amarrada na cabeça e conectada a um computador em uma mochila.

O próximo passo foi se tornar um “IRL”, ou “in real life streamer”, uma pessoa que transmite várias horas das suas atividades diárias ao vivo.

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Milhares de pessoas acompanham as atividades de Denino, que anda por aí se envolvendo em todo tipo de confusões com um celular em um pau de selfie, um equipamento de transmissão na mochila e um outro celular na mão para acompanhar o feed de comentários em tempo real. É uma cena e tanto.

Parte do público faz doações em dinheiro, o que garante uma renda mensal de US$ 60 mil. Enquanto outras fazem falsas ameaças de bomba e chamam a SWAT, o que assegura uma vida atribulada para o streamer.

As redes sociais já foram vistas como o paradigma máximo de autenticidade e proximidade.

Mas após milhares de fotos perfeitamente casuais de gurus fitness no Instagram, ou milhões de respostas engraçadinhas de marcas escritas por profissionais de mídias sociais no Twitter, tudo isso parece… falso.

Para um fã dos streamings de Denino, a experiência de acompanhar as aventuras dele com comentários e respostas em tempo real faz a experiência de ter um ídolo em outra plataforma lembrar mais a relação das nossas avós com as estrelas de cinema em uma revista dos anos 40.

Denino é uma celebridade para uma era sem intermediários. Ele está em contato direto com o seu público, sem ajuda de estúdios de cinema ou uma gravadora, ou, para ser franco, muito talento.

O que Denino entrega em troca da atenção do seu batalhão de seguidores é um pouco diferente disso: ele oferece a sensação de ter um amigo.


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