[Entrevista] Como um gestor pode driblar a ansiedade?

[Entrevista] Como um gestor pode driblar a ansiedade?

Muitos gestores se olham no espelho e veem uma imagem desfigurada, provavelmente em função da ansiedade que sentem. Esse estado de consciência e espírito gera uma série de sintoma físicos: zumbido na cabeça, membros dormentes e crise de humor. Pior: acontece durante as situações mais significativas. Você está preso no trânsito e sente com absoluta certeza que vai perder a reunião. Que a sua apresentação será ruim e que não encantará o novo cliente. Lá se vai a sua promoção… Todo e qualquer pensamento vem com uma carga negativa. Você gasta muito tempo no trabalho, mas nunca é o suficiente, pois o prazo sempre parece impossível de cumprir. O quadro piora quando você é o responsável pela organização do trabalho de uma equipe inteira.  

Sentiu aflição, ou se reconheceu, com a situação acima? Será que este é um labirinto sem saída? Para entender melhor a ansiedade no meio profissional, entrevistamos o médico psiquiatra Dr. Mario Louzã, que tem pós-doutorado em saúde mental pela Universidade de Würzburg (Alemanha).

O que são os transtornos de ansiedade e como diferenciar a ansiedade “normal” da patológica?

Transtorno de ansiedade é uma das formas mais comuns de doença psicológica. Pode se dar como transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de pânico, transtorno obsessivo compulsivo, transtorno de estresse pós-traumático, fobia social e fobias específicas.

Para definir se o estado ansioso é normal ou patológico, deve-se avaliar a intensidade e frequência com que ocorre, duração e a interferência no desempenho social e profissional do indivíduo. A ansiedade patológica se diferencia da ansiedade normal porque paralisa o profissional em situações importantes, trazendo prejuízos e não permitindo uma preparação para lidar com situações ameaçadoras.  

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As famosas técnicas respiratórias realmente ajudam controlar a ansiedade nas situações estressantes?

Elas ajudam se integradas a um pensamento que procure “tirar o foco” da ansiedade e dos pensamentos ansiógenos (termo científico para o que provoca ansiedade). Muitas vezes a ansiedade gera ansiedade que gera ansiedade e assim se forma um círculo vicioso que se retroalimenta. A interrupção desse círculo através da mudança de foco do pensamento ajuda a controlar o quadro de forma mais eficiente.

Existe um perfil mais comum de gestor ou alguma tendência de algum nível hierárquico da gestão sofrer mais com a ansiedade?

Seria difícil declarar com qualquer tipo de certeza que alguns cargos são mais difíceis do que outros e mais propensos à ansiedade – especialmente quando todo mundo está submetido a longas horas em um escritório. Mas, de acordo com o estudo liderado pela Universidade de Columbia, não são os CEOs ou funcionários de baixo nível, os membros mais prováveis de um escritório a sofrem de ansiedade e depressão. Pelo contrário, são os gerentes de nível médio. Segundo o estudo, os gerentes de nível médio experimentam as maiores taxas de depressão e ansiedade.


“Gerentes de nível médio estão em geral “espremidos” entre os diretores e os membros de sua equipe.”


Há algo que justifica esse fato?

As tarefas e o tipo de responsabilidade que gerentes médios carregam implicam nesse diagnóstico. Gerentes de nível médio estão em geral “espremidos” entre os diretores e os membros de sua equipe…eles recebem demandas e cobranças “de cima” e “de baixo” (imaginando-se aqui uma hierarquia funcional). Ambas estas características podem influenciar nas taxas mais elevadas de ansiedade das pessoas desses cargos.

E qual seria a postura que os profissionais devem adotar para reverter ou atenuar o quadro?

A solução não é tão complicada: começar a gerenciar seus funcionários como pessoas reais. Conhecê-las melhor e articular a sua missão de forma compartilhada, mantendo os funcionários de todos os níveis envolvidos nas responsabilidades a que o gestor responde.

Independentemente disso, se você está sofrendo de depressão ou ansiedade, procure ajuda. Muitas empresas oferecem a empregados programas de ajuda psicológica e problemas de ordem mental.  Se for o caso, você pode e deve chegar ao seu departamento de RH e se informar quais os serviços que sua empresa oferece assistência.


“Espera-se de alguém com cargo de gestor uma maturidade emocional que o torne capaz de gerenciar e controlar sua própria ansiedade, além da ansiedade do grupo.”


O que um gestor pode fazer para controlar a ansiedade, em um contexto com altas taxas de stress, como o que envolve a responsabilidade diária de garantir o desempenho de uma equipe inteira?

Gerenciar uma equipe não é tarefa simples. Requer habilidade para lidar com diferentes pessoas, pressões, prazos e com os mais diversos problemas que podem surgir no dia a dia. Por isso, a ansiedade é um sentimento que costuma acometer muitos líderes e gestores.

Mas, espera-se de alguém com cargo de gestor uma maturidade emocional (“quociente emocional”) razoável que o torne capaz de gerenciar e controlar sua própria ansiedade, além de gerenciar a ansiedade do grupo que lidera. Ele é a referência desse grupo e uma de suas funções é administrar essa teia de situações potencialmente ansiógenas que permeiam a dinâmica do grupo. Ele próprio deve ser capaz de autocontrole para transmitir tranquilidade e direção ao grupo nas situações de estresse. Um líder deve ter autoconhecimento e experiência; muitas vezes só um trabalho psicoterápico permite que ele se conheça mais profundamente, e se desenvolva emocionalmente, de modo que consiga lidar com suas próprias ansiedades e as das outras pessoas do grupo.

Com relação a gestores muito ansiosos, essa ansiedade pode ser o resultado da desorganização do próprio gestor na organização do trabalho?

A desorganização pode ser um dos elementos que aumentam a ansiedade. No entanto, aspectos emocionais, especialmente a capacidade de lidar com as emoções do grupo gerido pelo gestor, impactam bastante. Ele deve ter a capacidade de captar e absorver a ansiedade a expectativa do grupo e ‘devolver’ orientações e intervenções que auxiliem na redução da ansiedade dos elementos de sua equipe.


“Líderes ansiosos acabam transmitindo falta de comprometimento.”


Como a ansiedade pode prejudicar a carreira de um gestor?

Mais do que uma imagem de insegurança, líderes ansiosos acabam transmitindo falta de comprometimento, pois acabam não cumprindo suas tarefas de maneira eficaz. Isso só piora o quadro de ansiedade, uma vez que a pressão no trabalho se torna maior, quando a sua responsabilidade começa a ser questionada. A ansiedade ou a incapacidade de lidar com as situações de crise podem levar um gestor e sua equipe a um “naufrágio”. Neste sentido, ele “afunda” sua carreira, se não consegue gerenciar adequadamente as situações de tensão que certamente ocorrem no ambiente corporativo.

Ansiedade e frustração muitas vezes se confundem, mas sabemos que são duas classes funcionais de respostas distintas. Qual as principais diferenças entre elas e o que o gestor deve fazer para controlar cada uma da melhor forma?

A ansiedade é basicamente um sentimento humano decorrente de uma expectativa, real ou imaginária, com sintomas físicos e mentais. A ansiedade dentro de certos limites é um ‘motor’ da vida; ultrapassado esse limite ela se torna prejudicial ao desempenho.

A frustração é, em geral, decorrente de uma expectativa não realizada. Algo deveria ocorrer (por exemplo, uma promoção), mas não ocorre. Vem um sentimento de incapacidade ou de percepção de que “não sou tão competente quanto imaginava”, ou “fui preterido numa escolha”. Pode ser considerado como um “golpe ao narcisismo” da pessoa. Isto a leva a ter que rever seus autoconceitos, sua percepção de si mesmo. Se a pessoa não tem a maturidade necessária para essa autocrítica, muitas vezes a reação é de ‘projetar’ nos outros, suas próprias falhas ou limitações… aí ocorrem raciocínios como, “fui perseguido pelo chefe que não me promoveu” ou “a culpa foi de fulano que me prejudicou”.

O que um gestor deve fazer quando sua equipe já incorporou sua imagem de alguém muito ansioso? Há algo que pode reconstruir essa imagem?

Não é fácil mudar a imagem diante de um grupo (não é à toa que diz o ditado “quem tem fama deita na cama”). A imagem torna-se uma espécie de carimbo e será necessário um esforço grande e de longo prazo para o gestor demonstrar que reviu suas posições ou aprendeu a lidar com suas próprias ansiedades. Muitas vezes esse amadurecimento só é obtido com um trabalho psicoterápico específico.


“Cometa erros. Aquele que não corre nenhum perigo deixou de viver por querer tudo sempre sob controle.”


Quais são os primeiros passos para controlar a ansiedade e se tornar um líder melhor?

Conhecer-se a si mesmo, perceber qual é o próprio grau de maturidade emocional. Feito esse ‘diagnóstico’, buscar trabalhar essas limitações, seja de forma autônoma ou em alguns casos buscando ajuda especializada.

E não tente racionalizar tudo. Deixe de pensar mil vezes no que pode acontecer. A vida tem seu ponto de inconsciência. Mas nada acontece se você não participa. E cometa erros. Na organização do trabalho não é diferente. Falhar faz parte da aprendizagem. Aquele que não corre nenhum perigo é aquele que deixou de viver por querer tudo sempre sob controle. Imobilizar suas ações para proteger-se não é a solução para sua ansiedade.

Quais são as dicas mais infalíveis para diminuir e controlar a ansiedade nos momentos mais intensos?

Não há uma ‘dica infalível’, uma vez que cada um expressa sua ansiedade de modo diferente e em situações diferentes. De todo modo, numa situação de crise, o movimento necessário seria o de um “distanciamento” da própria ansiedade, de modo que esta possa ser observada e compreendida “de fora”.

Mude o foco da atenção. Seus sintomas não são os protagonistas, o protagonista é você. Chega um momento em que surge o famoso medo do medo: você fica dependente de como seu corpo se comporta, da intensidade com que se manifestam seus sintomas de ansiedade e como eles condicionam sua vida. Uma reflexão, uma gestão do pensamento ansiógeno, uma busca de perceber e entender de onde emerge a ansiedade, e por que emerge, colabora para diminuir os sintomas.

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Como controlar a ansiedade na organização do trabalho?

A forma como o trabalho é distribuído é fundamental para garantir o equilíbrio emocional de uma equipe. Onde faltam organização e processos definidos, sobra espaço para a ansiedade crescer. Conheça o Runrun.it, a ferramenta de gestão que protege o desempenho do seu time. Com ele,  a organização do trabalho é muito mais simples, as tarefas são designadas a responsáveis, priorizadas, e todos se comunicam de forma muito mais transparente. Experimente grátis: http://runrun.it.

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