O que é liderança? Fazer a diversidade funcionar

O que é liderança? Fazer a diversidade funcionar

Compreender o que é liderança envolve principalmente compreender o que liderança não é. Quer ser um péssimo ou uma péssima líder? Desrespeite e desvalorize a diversidade. Desconsidere o quanto ela é uma necessidade. Subestime as contribuições que pessoas de diferentes gêneros, etnias e raças e vivências – o que inclui diferentes orientações sexuais e identidades de gênero. Afinal, quem lidera lidera pessoas, assim, no plural. Por isso vamos analisar por que a diversidade de um time é basilar, inclusive, para as finanças da sua empresa.

Para quem, dia após dia, se pergunta como motivar uma equipe, esta é uma boa chance de ouvir o que Heidi Halvorson e David Rock, especialistas do Neuroleadership Institute, querem que líderes saibam sobre a importância de montar equipes diversas. Tudo com base em estudos.

Equipes diversas são melhores em quê?

Quando a dúvida surge, é hora de buscar respostas junto daqueles que vivem para isso: pesquisadores. E foi o que fizeram os especialistas Halvorson e Rock. No artigo “Why Diverse Teams Are Smarter”, publicado na Harvard Business Review em novembro de 2016, eles citam dois estudos sobre o impacto da diversidade – é isso mesmo – sobre as finanças das empresas.

Em 2015, pesquisadores da McKinsey avaliaram 366 companhias públicas de vários países, e o que constataram foi o seguinte. Aquelas que apresentavam a maior diversidade étnica e racial em posições de gestão eram 35% mais propensas a obter retorno financeiro acima da média de seu ramo. E aquelas que contavam com a maior diversidade de gênero eram 15% mais propensas a conquistar essa mesma vantagem.

Outra análise com 2400 empresas de todo o globo, conduzida pelo Credit Suisse, não trouxe resultados contrários aos de cima. Organizações com pelo menos uma mulher no conselho diretor apresentam maior retorno sobre o patrimônio líquido, e seu lucro líquido cresce mais do que aquelas em que não há mulher alguma na diretoria.

“Equipes não homogêneas são mais espertas”, afirmam os pesquisadores, citando outro estudo recente, que afirma: trabalhar com pessoas diferentes de você desafia suas formas tradicionais de pensar e refina o desempenho do seu cérebro. Mais especificamente, dizem, equipes diversas:

1) focam-se mais em fatos;
2) processam dados com mais cautela, e
3) têm maior habilidade de inovar.

Foco nos fatos

Pessoas com origens, vivências e repertórios culturais diversos trabalhando em equipe podem levar a um pensamento de grupo mais refinado e preciso. É o que aponta um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology. Cientistas distribuíram cerca de 200 pessoas em júris de seis pessoas. Alguns eram completamente compostos por pessoas brancas, enquanto em outros havia quatro brancos e dois negros. A tarefa era a seguinte: assistir ao vídeo do julgamento de um réu negro com vítimas brancas e decidir se o réu era culpado ou inocente.

O que se observou foi que os júris com negros e brancos levantaram mais fatos relacionados ao caso do que os júris homogêneos, e realizaram menos erros factuais ao discutir as evidências. E quando ocorriam erros, eram corrigidos com mais frequência durante a deliberação. O motivo? Para os pesquisadores, os jurados brancos em grupos mistos buscariam evidências com mais precisão, em vez de se guiarem por pensamentos fáceis, baseados em estereótipos e preconceitos.

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Outros estudos trouxeram resultados semelhantes. Numa série de experimentos conduzidos no Texas e em Cingapura, publicados no jornal científico PNAS, pesquisadores organizaram os participantes ora em equipes etnicamente diversificadas ora em grupos homogêneos. Todos apresentavam boa instrução em finanças e sua missão era cotar algumas ações de mercado. Resultado: aqueles que participavam de equipes mistas eram 58% mais propensos a fazer a cotação correta.

Para Halvorson e Rock, “quando estão em equipes diversificadas, as pessoas são mais suscetíveis a reexaminar os fatos, a permanecer objetivas. São mais propensas a avaliar criticamente suas ações”. É o que cientistas descrevem como “manter seus recursos cognitivos afiados e vigilantes” – o que parece também ser uma boa forma de descrever o que é liderança.

Processamento cuidadoso de dados

“A diversidade pode mudar a maneira como equipes inteiras digerem informações e tomam melhores decisões”, insistem Halvorson e Rock. Em um estudo publicado no Personality and Social Psychology Bulletin”, Katherine Phillips da Northwestern University e sua equipe distribuíram membros de fraternidades e irmandades universitárias em quartetos, propondo que lessem as entrevistas de um detetive que investigava um assassinato.

Três pessoas de cada grupo sempre vinham da mesma irmandade ou fraternidade, enquanto a quarta poderia ser do mesmo grupo ou de outro aleatório. Então, os três veteranos de cada grupo se reuniam para determinar quem seria o suspeito mais provável do assassinato. Cinco minutos depois, o quarto integrante se juntava à deliberação e expressava sua suspeita.

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Verificou-se que, embora os grupos com o quarto integrante de outras irmandades e fraternidades se sentissem menos confiantes sobre suas decisões, acertavam mais vezes o nome do assassino do que os grupos com todos já conhecidos entre si.

Para os cientistas do experimento, o que acontece é: grupos diversos podem superar os homogêneos na tomada de decisão porque processam as informações com mais cuidado. “Considerar a perspectiva de um estranho pode parecer contraintuitivo, mas a recompensa pode ser enorme”, Halvorson e Rock concluem.

Ao romper com a homogeneidade no local de trabalho, você mostra que está entendendo o que é liderança. Pelo simples fato de que está permitindo que seus colaboradores se tornem mais conscientes de seus próprios vieses, isto é, de suas formas enraizadas de pensamento que, de alguma forma, podem cegá-las e impedi-las de encontrar informações-chave. O efeito disso, sabemos, é a maior probabilidade de falharem ao tomarem decisões.

Cenário propício para inovações

Você já está careca de saber que, para se manter competitiva, uma empresa deve inovar. O que você talvez não imaginava é que uma das melhores estratégias de aumentar a capacidade de transformação da sua marca e dos seus produtos envolve a contratação de mais mulheres e de pessoas de culturas diversas.

O embasamento dessa informação é o estudo publicado em “Innovation: Management, Policy & Practice”. Nele os autores analisaram níveis de diversidade de gênero em equipes de Pesquisa e Desenvolvimento (R&D) de 4.277 empresas da Espanha. Adotando modelos estatísticos, eles descobriram que as empresas com mais mulheres eram mais propensas a introduzir inovações radicais no mercado no espaço de apenas dois anos.

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Em outro estudo, publicado na revista Economic Geography, os pesquisadores concluíram que o aumento da diversidade cultural é um propulsor da inovação. Eles reuniram dados sobre 7.615 empresas que participaram do London Annual Business Survey, um questionário realizado com os executivos da capital do Reino Unido, sobre o desempenho de suas empresas. Os resultados revelaram que as empresas dirigidas por equipes culturalmente diversas eram mais propensas a desenvolver novos produtos do que aquelas com liderança homogênea.

“Embora você possa se sentir mais à vontade trabalhando com pessoas que compartilham sua experiência, não se deixe enganar pelo seu conforto”, recomendam e Halvorson e Rock, que também publicaram o artigo “Diverse Teams Feel Less Comfortable – and That’s Why They Perform Better”. Nele, enumeram outros estudos que só endossam a diversidade como uma necessidade. Confira:

Estudos não faltam: Diversidade é uma necessidade

Uma análise de 2009 com 506 empresas revelou que aquelas com maior diversidade racial e de gênero que a média alcançam maior receita de vendas, mais clientes e lucros superiores. Outra pesquisa, esta de 2016 e mais ampla, com mais de 20 mil organizações em 91 países, descobriu que aquela com mais mulheres em cargos executivos eram mais lucrativas. Em 2011, um estudo com equipes de gestores demonstrou que aquelas com um leque mais variado de bagagens de educação e repertório profissional criavam produtos mais inovadores.

Em suma, como eles descrevem, contratar pessoas que não enxergam nem falam nem pensam como você pode evitar as “armadilhas dispendiosas da conformidade que desencorajam o pensamento inovador”. Mais uma vez nos voltamos à primeira questão: O que é liderança? Pistas não faltam.

Rompendo a homogeneidade

Antes de finalizar, duas palavras merecem nossa atenção, por terem íntima relação com o problema da falta de diversidade. Ambas foram finalistas a “Palavra do Ano de 2016” do Oxford Dictionary. São elas: Glass Cliff (penhasco de vidro) e Woke (do verbo “to wake”, despertar).

Glass Cliff é usada para se referir à situação em que uma mulher ou um membro de um grupo minoritário sobe a uma posição de liderança, desafiando circunstâncias nas quais o risco de fracassar é elevado. Por sua vez, Woke, adotada já em 1962 e popularizada recentemente com a hashtag #StayWoke e a campanha #BlackLivesMatter, existe para designar a pessoa que está alerta ao racismo e ao sistema de perseguição e opressão aos negros.

Palavras dessa natureza ainda são necessárias e não deixarão de ser enquanto atitudes concretas forem tomadas pelas lideranças de companhias e grupos. Criar um local de trabalho mais diverso é um importantíssimo passo para manter os preconceitos sob controle, até reduzi-los a lembranças, e fundamental para provocar as pessoas a questionarem suas suposições e prejulgamentos.

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“Enriquecer seu quadro de colaboradores com pessoas de diferentes gêneros, raças e nacionalidades é fundamental para impulsionar o potencial intelectual coletivo da sua empresa”, resumem Heidi Halvorson e David Rock. Ao mesmo tempo, é preciso tratar como uma prioridade estratégica da empresa a implementação de práticas inclusivas, para que todos sintam que podem ser ouvidos – e que o sejam de fato.

Para líderes, entender o que é liderança e fazer a diversidade funcionar são sinônimos. Mesmo porque respeitar a diferença simplesmente não é mais do que exercer sua cidadania e não violar preceitos éticos básicos.

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