Juventude divino tesouro? Nem tanto

Juventude divino tesouro? Nem tanto

Pense num fundador de uma startup de tecnologia bem-sucedida. Qual a imagem vem na sua mente? Provavelmente, alguém jovem, quem sabe usando um daqueles moletons com um capuz, ou uma camisa colorida com um nome enigmático de empresa escrito todo em letras minúsculas.

A imagem tem razão de ser. Uma linha de ícones do empreendedorismo digital fundou empresas que definem o mundo da tecnologia hoje em tenras idades.

Bill Gates tinha 20 anos quando fundou a Microsoft e Steve Jobs, 21 quando criou a Apple, ambos ainda no anos 70. Larry Page e Sergey Brin eram apenas um pouco mais velhos quando criaram o Google em 1998, na época com 25 anos.

Mark Zuckerberg, o homem que hoje talvez seja a face do empreendedor digital altamente bem-sucedido, criou o Facebook no dormitório da sua universidade com 20 aninhos e hoje lidera a companhia com 33 anos.

Young people are just smarter”, disse o próprio Zuckerberg durante uma palestra em 2007, então com apenas 22 anos e já uma figura cujas frases viravam manchetes. Pessoas jovens são mais espertas e não há o que fazer. O quanto antes fundarem uma empresa que vá mudar o mundo radicalmente, melhor.

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Peter Thiel, fundador do PayPal (já na “avançada” idade de 33 anos) e hoje um dos mais influentes investidores em startups do Vale do Silício, inclusive criou um programa de becas. Com essas bolsas de estudo, promete US$ 100 mil para os selecionados, desde que eles tenham menos de 23 anos e estejam dispostos a sair da universidade.

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Não confie em ninguém com mais de 30

Assim como muitos outros aspectos da cultura de empreendedorismo digital propagada a partir do Vale do Silício hoje em dia, a crença de que os jovens por serem jovens têm mais potencial, para criar um novo negócio altamente bem-sucedido, é uma reciclagem para o terreno empresarial de ideias, posturas e clichês da contracultura americana dos anos 60.

Um dos centros do movimento que definiu parte da cultura jovem da época era a Universidade de Berkeley, localizada na cidade de mesmo nome ao lado de São Francisco e a menos de uma hora de carro da atual sede do Facebook, em Menlo Park.

Jerry Rubin, um ex-estudante de Berkeley, convertido em ativista social e uma das vozes mais influentes do movimento hippie, resumiu parte do espírito daqueles tempos numa frase que ficou famosa: “Não confie em ninguém com mais de 30”.

Dentro do contexto da época, com a agitação estudantil tomando as ruas de Paris em 1968 e se alastrando pelo mundo (me pergunto como isso foi possível sem o Facebook ou o Twitter), os jovens pareciam os arautos da mudança. Ou, para usar os termos de hoje, de uma disrupção política.

Comentaristas (geralmente mais velhos, sempre alinhados politicamente com os manifestantes) falavam em “poder jovem” ou na “razão da idade”. Era como um reconhecimento de que as demandas e os projetos das novas gerações mereciam ser ouvidas com uma atenção especial.

Nelson Rodrigues comentou extensamente as repercussões cariocas de maio de 68 nas suas colunas do Globo. Elas foram recuperadas por Ruy Castro nas excelentes coletâneas “A Cabra Vadia” e “O Óbvio Ululante”. Aqui vai uma delas.

Rodrigues, que encenou “Vestido de Noiva”, sua primeira grande peça teatral, em 1943, já entrado nos 30, não estava muito impressionado com a ideia do poder jovem, fulminando os manifestantes com a definição: “O jovem tem todos os defeitos de qualquer um e mais este: a imaturidade”.

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Nelson estava certo, diz pesquisa

Pelo menos na questão dos jovens como fundadores de empresas de tecnologia bem-sucedidas, Nelson Rodrigues estava certo, segundo uma pesquisa recente do National Bureau of Economic Research, uma respeitada instituição de pesquisa econômica americana. O estudo não menciona Nelson Rodrigues, essa conexão foi minha.

Com base em informações de fontes públicas do governo americano, no registro de patentes e bases de dados de investidores privados, filtradas para listar apenas startups novas de alta performance, os pesquisadores do NBER chegaram a uma conclusão surpreendente. O paper pode ser visto na íntegra aqui.

A idade média de um fundador de uma startup na área de computação, com pelo menos um empregado na data da criação do negócio, é 38.5 anos. O número é só um pouco abaixo da média geral do mercado, que é de 41.9 anos.

Fundadores de companhias com financiamento de fundos de investimento e situadas em hubs de inovação como o Vale do Silício (1,9 mil de uma mostra de 2,7 milhões de fundadores) também ficam abaixo dos 40 anos, mas por muito pouco: 39.5. O setor com a maior média de idade é o de óleo e gás, com 51.4.

Mesmo usando uma definição mais ampla de fundadores, listando os três maiores salários de uma empresa nova no primeiro ano de operação, os pesquisadores descobriram que o mais novo do grupo tinha em média 35.1 anos.

E mais. Se um cinquentão resolve abrir uma empresa, aponta o estudo, ele tem quase o dobro de chances (1,8 vezes mais chances, para ser exato) de ficar no 0,1% (a 1ª entre 1.000) das companhias com maior crescimento.

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De acordo com os pesquisadores, o fato de ter sido previamente empregado no setor da economia no qual fundou sua startup aumenta a chance de sucesso em até 125%.

Quanto maior é a correlação entre o ramo da experiência prévia com o da nova empresa, maior é a chance de ser essa empresa número 1 em um grupo de mil. Vale lembrar que ainda assim é muito difícil. Essa cifra varia entre 0,11% e 0,26% do total de fundadores, aumentando na proporção que o fundador tem uma experiência profissional mais próxima.

Um exemplo das tendências apontadas na pesquisa é o da WorkDay, fundada em 2005 por David Duffield e Aneel Bhusri, ex-CEO e estrategista-chefe da Peoplesoft.

Depois de terem a Peoplesoft comprada na marra pela Oracle, os executivos, com 64 e 39 anos na época, montaram o novo negócio.

Ao abrir suas ações na bolsa em 2012, a empresa foi avaliada em US$ 9,5 bilhões. Meses antes, o Facebook tinha aberto ações e levantou US$ 16 bilhões. Muito mais gente sabe o que é o Facebook, mas falando de dinheiro, os velhotes não se saíram nada mal.

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O otimismo da juventude

Mesmo a trajetória dos empreendedores citados no começo do artigo dá pistas nesse sentido.

Steve Jobs fundou a Apple com 20 anos, é verdade. Mas a empresa só atingiu o patamar atual no segundo reinado de Jobs na companhia, com lançamentos como o iPod, e, mais importante, o iPhone. O que transformou uma fabricante de PCs de nicho amados por publicitários em uma máquina de criar produtos de massa.

Pessoas jovens teoricamente estão menos comprometidas com uma visão de como as coisas devem ser, têm menos entraves pessoais e, portanto, estão mais dispostas a correr riscos.

Correr riscos, no entanto, não significa necessariamente triunfar sobre os riscos. Ainda mais, quando entra na conta o otimismo excessivo característico da juventude na hora de avaliar afinal quais são os riscos que se vai correr.

O empreendedor experiente tem a seu favor capitais financeiros, pessoais e sociais que fazem a diferença na hora dos resultados. Jobs era um gênio quando jovem, mas também cometeu erros estratégicos graves que levaram à sua demissão da própria empresa. Mais velho, ele conseguiu melhores retornos pela sua genialidade.

Já que estamos falando de gênios, vamos voltar a Nelson Rodrigues: “A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades”.


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