O Vale do Silício lê Ayn Rand, mas deveria ler Mary Shelley

O Vale do Silício lê Ayn Rand, mas deveria ler Mary Shelley

O Facebook se meteu em problemas sérios. A empresa encontrou o seu próprio Edward Snowden na figura de Christopher Wylie, um rapaz de óculos de armação grande e gosto duvidoso para pinturas de cabelo que revelou graves problemas de segurança de dados pessoais dentro da rede social.

Wylie disse ao New York Times e ao The Guardian que a empresa Cambridge Analytica, uma mistura de especialistas em marketing digital com personagens de algum episódio de Black Mirror, usou um desses apps de quizzes populares no Facebook para acessar os dados de mais de 80 milhões de pessoas em 2014.

Além da banalidade do mecanismo (quantos resultados de enquetes desse tipo você já viu na sua timeline?), o fato foi agravado pela revelação de que as informações foram obtidas acessando os perfis dos amigos de um grupo inicial de apenas 270 mil participantes.

Na época, o Facebook autorizava esse tipo de compartilhamento de informações de terceiros. Wylie afirma que a companhia conseguiu criar 30 milhões de perfis de personalidade e, com isso, explorar os “demônios internos” das pessoas em prol de clientes como Donald Trump e a campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia.

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O caso da Cambridge Analytica não aconteceu no vácuo. As crises sobre privacidade de dados são centrais na experiência de uso do Facebook, com a resposta sendo normalmente o pedido de desculpas e as atualizações no cada vez mais bizantino sistema de controle de privacidade.

Na prática, a estratégia parecia aplicar a dinâmica do sapo cozido nos usuários (incrementar a temperatura aos poucos), fazendo com que eles aceitassem uma ausência cada vez maior de privacidade em troca dos benefícios de estar em uma rede social, dentro de um mundo mais transparente.

As revelações sobre a Cambridge Analytica vieram depois de alegações de uso do Facebook como uma plataforma de disseminação de fake news por agentes russos, em uma das campanhas eleitorais mais polêmicas da história americana.

Pelo o que eu ouvi de dezenas de palestrantes em uma série de palestras sobre Big Data nos últimos anos, os dados são o novo petróleo. A metáfora, algo forçada, visa transferir para a área de dados o valor do petróleo e a sua centralidade na economia mundial.

No entanto, a situação em que o Facebook se envolveu é o equivalente ao desastre com a plataforma de petróleo Deepwater Horizon da BP, no Golfo do México, em 2010. Dados e petróleo são um ativo precioso e potencialmente benéfico, mas também complicados de extrair. Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, como já aprendeu o Homem-Aranha.

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Eu tenho razão e tudo vai dar certo

Como uma coisa dessas chega a acontecer? Essa é uma pergunta que pode ser respondida em termos práticos e imediatos (como os mecanismos de privacidade do Facebook funcionam, ou deixam de funcionar), mas não é por aí que se obtém as respostas mais reveladoras.

O problema do Facebook não é só o problema do Facebook. Nos últimos tempos, todo o Vale do Silício parece estar despencando de popularidade.

Para ficar só em um outro exemplo célebre, o Uber se viu no meio de um escândalo de assédio sexual de proporções épicas e, recentemente, seu carro autônomo causou a morte de uma pessoa.

Cada vez mais, as pessoas começam a acreditar que existe um abismo entre o que o Vale do Silício promete (10 mil startups focadas em “criar um mundo melhor”) e o que ele entrega na prática (afetar setores inteiros da economia, mais uma cultura tóxica de narcisismo e busca constante por gratificação instantânea).

Como as pessoas agem é uma consequência de como elas se veem. Como você se vê é muito influenciado por em quem você se espelha. Quando o assunto é influência na auto-imagem, um dos segredos menos guardados do Vale do Silício é a devoção das maiores mentes da área à filósofa e escritora Ayn Rand.

Travis Kalanick, fundador do Uber, Steve Jobs, fundador da Apple, e o megainvestidor Peter Thiel são alguns dos fãs declarados da autora. Ela publicou The Fountainhead (traduzido no Brasil como A Nascente) e Atlas Shrugged (traduzido no Brasil para A Revolta de Atlas), seus livros de ficção mais conhecidos, em 1943 e 1957, e viveu o auge da sua influência intelectual nos anos 1960, quando promoveu a doutrina moral do objetivismo.

Falecida em 1982, Rand está mais viva do que nunca nos valores éticos do Vale do Silício. Suas obras mais populares têm como personagens centrais empreendedores lutando para levar a cabo suas visões, em um mundo que tolhe o indivíduo e premia o conformismo e a mediocridade.

Em Atlas Shrugged, essa elite de inovadores faz uma “greve de talento”, liderada por um personagem misterioso chamado John Galt. O mundo é jogado nas trevas até ser reassumido pelos seus líderes naturais.

Essa visão do papel do empreendedor é o que está por trás de chavões como “Mexa-se rápido e quebre coisas”, um clássico do Facebook, ou ainda “É melhor pedir desculpas do que pedir licença”, do Uber.

Ambas não deixam de ser derivações de uma frase frequentemente atribuída a Ayn Rand: “A questão não é quem vai me deixar, é quem vai me impedir”.

Ayn Rand é uma pensadora mais sofisticada do que esse chavão. A má interpretação das suas ideias é, em parte, derivada de tantas pessoas terem contato com elas através das narrativas literárias, com as quais se engajam num nível mais emocional.

Não deixa de ser irônico para uma intelectual que considerava a racionalidade como a maior virtude humana. Em cima da razão, Rand tentou construir um novo sistema moral, no qual o interesse próprio racionalmente entendido orientava a conduta ética do indivíduo e a construção de uma sociedade verdadeiramente capitalista.

As ideias de Rand são instigantes, mas quem quiser conhecê-las melhor provavelmente deveria evitar calhamaços como Atlas Shrugged e ler as coletâneas de artigos da escola objetivista.

As duas mais conhecidas são The Virtue of Selfishness (A Virtude do Egoísmo) e Capitalism: The Unknown Ideal (Capitalismo: O Ideal Desconhecido). Neste último livro, inclusive, um dos jovens colaboradores de Rand é ninguém menos que Alan Greenspan, que, anos depois, se tornaria o todo poderoso líder do Fed Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos. Outra prova da influência duradoura da filósofa.

Eu sou um criador de coisas potencialmente horríveis

Se o problema do Vale do Silício é causado por um excesso de Ayn Rand, qual seria a solução? Acertou quem pensou em reler Frankenstein, o clássico inspirador de ficção científica de Mary Shelley.

Pelo menos é o que pensa a MIT Press, editora da famosa universidade Massachusetts Institute of Technology. Eles acabaram de lançar uma versão especial do livro com comentários para “cientistas, engenheiros e criadores de todos os tipos”, além de uma série de ensaios de pesquisadores para fechar o pacote. Está tudo disponível aqui.

Frankenstein está completando 200 anos e já foi tido como uma metáfora para uma série de coisas. Por exemplo, uma alegoria sobre a Revolução Francesa ou uma encarnação do desconforto trazido pela Revolução Industrial Inglesa.

Uma interpretação psicológica é que foi uma maneira da jovem Mary Shelley de lidar com traumas da sua vida pessoal causada por outros nascimentos mal sucedidos. A mãe de Mary morreu depois do parto, e ela mesma perdeu o primeiro e segundo filhos com poucos meses de intervalo, quando ainda tinha 18 anos.

A nova interpretação do livro pelo MIT Press, como uma fábula sobre a responsabilidade do criador pelas consequências da sua criação, ou sobre as consequências imprevistas do progresso, é ainda mais evidente. Afinal, o subtítulo do livro é “o Prometeu Moderno”.

Apesar da maneira de como entrou para o imaginário coletivo, Frankenstein é o nome do cientista e não do monstro, uma criatura inominável que por isso mesmo não tem nome.

Mary Shelley viveu naqueles que talvez tenham sido os anos mais febris do conhecimento humano, quando foram assentadas as bases da ciência moderna e das descobertas dos últimos dois séculos.

Cerca de 60 anos antes da publicação de Frankenstein, em 1752, Benjamin Franklin provou que um raio é eletricidade. Em 1780, Luigi Galvani fez as pernas de um sapo morto se mexerem com corrente elétrica, descobrindo a bioeletricidade e, em 1789, Antoine Lavoisier apresentou a lei de conservação das massas, o começo da química moderna. A bateria foi inventada em 1800 e anestesia geral em 1804.

Lições para o Vale do Silício

Victor Frankenstein segue cegamente sua vaidade de criador e sopra a vida em uma costura de órgãos dos mortos, para depois se apavorar com o produto de seu atrevimento e enfrentar suas horríveis consequências.

Não exatamente a imagem mais incentivadora para um empreendedor, mas talvez uma vacina necessária contra os perigos do narcisismo intelectual, do auto-referencialismo e da irresponsabilidade, que começam a ter consequências mais sérias no Vale do Silício.

“O remorso extinguiu todas as esperanças”, diz Frankenstein depois da sua criatura começar a matar as pessoas que ele ama. “Eu fui o autor de maldades inalteráveis e eu vivo no medo diário de que o monstro que eu criei vá perpetuar alguma nova maldade”.


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4 thoughts on “O Vale do Silício lê Ayn Rand, mas deveria ler Mary Shelley

  1. Gostei bastante do conteúdo do texto. Concordo com o fato de que muitas empresas estão criando monstros e, não estão querendo assumir a responsabilidade pelas consequências geradas. O Ego está tão gigantesco, que a responsabilidade que deveria ser deles, estão sendo repassadas para as pessoas que foram afetadas.
    Obs: Só não concordo com a opinião sobre o gosto duvidoso para pinturas de cabelo (opinião de quem teve o cabelo de todas as cores e atualmente é um arco-íris ambulante). Mas isso em modo algo interfere no objetivo principal da matéria.

    1. Oi Janaína,
      Tu entendestes bem o espírito do que eu quis dizer. Acho que é hora de avaliar de forma diferente as grandes empresas do Vale do Silício. Quanto ao cabelo do rapaz, eu sou um velho chato. A maioria do tempo eu disfarço bem, mas às vezes escapa algo 😉

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