O ano que eu esqueci meu aniversário

O ano que eu esqueci meu aniversário

No verão de 1995, eu esqueci da data do meu próprio aniversário. Meu pai, minha mãe e meu irmão também.

Antes que vocês pensem que eu sou um alienado que vive no mundo da Lua (algo, pelo menos em parte, verdadeiro) e que a minha família é um bando de desalmados sem coração (totalmente falso, pelo menos em relação aos meus pais), é preciso fazer alguns esclarecimentos sobre o ano de 1995.

É possível entender a história de uma maneira linear, como uma medição da passagem do tempo. Segundos, minutos, dias, semanas, meses, anos. Nesse sentido, o verão de 1995 aconteceu faz 23 anos. Mas o mundo não funciona dessa maneira.

O mundo anda aos saltos: o verão de 1995 provavelmente se parecia mais com o verão de 1972 do que com o de 2018, apesar de ser equidistante dos dois.

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Vejam se não: eu estava de férias em Guarapari, no Espírito Santo, cidade até a qual nos deslocamos saindo de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, com meu pai dirigindo um Fiat Prêmio por mais de dois mil quilômetros por uma rota tortuosa ao longo de quase uma semana, sem ar condicionado, direção hidráulica, GPS, telefones celulares ou reservas de hotel.

A orientação era oferecida por um mapa do Brasil, que totalmente aberto poderia ser do tamanho de alguns países pequenos da Europa.

Olhando hoje, a nossa viagem adquire tons de aventura improvisada com garantia de momentos de profundo e absoluto tédio. Com certeza foi um pouco dos dois, mas também era uma viagem normal de uma família de classe média na época.

Chegando em Guarapari, todos os dias eram iguais, com sol e praia. A TV não pegava e não tínhamos como falar com ninguém. No final das contas, o mais normal era esquecer que dia da semana era, mesmo que um deles fosse o teu próprio aniversário.

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Hoje é impossível esquecer

O meu aniversário do qual eu me esqueci acabou se tornando um dos quais eu me lembro melhor. E eu pensei nele outra vez esses dias, quando estava tentando descobrir como eliminar minha data de nascimento das informações públicas do Facebook e do LinkedIn.

Os aniversários parecem ser um assunto trivial para o qual se olhar como um exemplo da influência das redes sociais. Ainda mais em um momento no qual se discute se a inépcia ou a irresponsabilidade do Facebook pode ter influenciado as eleições americanas facilitando a difusão de fake news por parte de serviços de inteligência russos.

Aqui mesmo no Brasil, a rede social gerou grande celeuma ao tirar do ar uma rede de 196 páginas e 87 perfis pessoais relacionados ao Movimento Brasil Livre (MBL), que juntas somavam 500 mil seguidores.

A medida visa evitar o uso do Facebook para disseminação de notícias falsas. Ou, na versão dos detratores, é um uso arbitrário de poder para fazer censura viés ideológico.

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Práticas de manipulação política no Facebook, no entanto, não são um tema tão pervasivo na nossa vida como aniversários.

Algumas pessoas são ‘abençoadas’ e conseguem passar longe de textões e debates amargos em redes sociais. Outras não se importam com o futuro do Brasil. Por outro lado, todo mundo faz aniversário uma vez por ano.

Quem é um pouco mais velho pode se lembrar com facilidade de uma época que o próprio aniversário era um acontecimento relativamente privado, que podia ser comemorado apenas com familiares e amigos próximos e cuja data só umas poucas pessoas saberiam.

É um estado de coisas que não favorece muito redes sociais construídas em torno do objetivo de promover engajamento contínuo, mesmo que por meio de interações rasas em grande volume, que acabam transformando cada vez mais a convivência social em uma espécie de tarefa a ser cumprida.

Assim, o Facebook tem incrementado a cada ano o estímulo para os usuários interagirem com seus contatos que estão de aniversário naquele dia.

O LinkedIn, que é uma rede aparentemente desenhada por pessoas com uma compreensão de skills sociais ainda mais deficiente do que as do Facebook, tem até mensagens prontas para envio, uma espécie de spam da amizade.

De acordo com o chamado paradoxo dos aniversários, em qualquer agrupamento superior a 70 pessoas, existe uma probabilidade de 99,9% de que haja dois aniversários no mesmo dia. A probabilidade é de 50% em um grupo de 23 pessoas.

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Engraçado isso, né? Hackers levam em conta esse princípio matemático para planejar alguns tipos de ataque que… Bom, isso não tem nada a ver com o tema que eu estou tratando aqui.

O fato é que os aniversários se acumulam e com eles as felicitações. Muitas delas vindo de pessoas bem longe do círculo de relações, com as quais já não há contato na vida real.

Muitos aniversariantes, assoberbados pelo volume de atenção, têm optado por não responder individualmente as mensagens de felicitação, respondendo “no atacado”.

Alguns desses agradecimentos coletivos listam a quantidade de contatos recebidos, o que acaba deixando elas parecidas com o relatório de engajamento feito por uma agência de mídia social. O que é esquisito, ainda que seja de maneira involuntária o melhor resumo do espírito da coisa toda. Talvez isso também possa se tornar mecânico.

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Privacidade líquida

Claro que o Facebook e outras redes sociais não são os primeiros a introduzir novas formas de comunicação que favoreçam seu próprio modelo de negócio, muitas vezes oferecendo o estímulo de um contexto pré-formatado do que dizer para facilitar as coisas.

Um exemplo são os cartões postais com registros de locais turísticos, cujos primeiros modelos começaram a circular no final do século 19 e, curiosamente, despertaram algumas das preocupações relacionadas com as redes sociais de hoje.

Uma dessas preocupações era cultural: um cartão postal de moças na praia, adequado na França, podia pegar mal no Império Otomano. Outra tinha a ver com a privacidade: qualquer um pode ler um cartão postal, o que parecia a alguns um ultraje. O correio é uma coisa privada!

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A verdade é que a privacidade não é um valor absoluto, mas uma espécie de bem que nós negociamos segundo a nossa conveniência.

Por uma foto legal, uma postagem barata e o benefício de contar vantagem de estar de férias, eu assumo que meu cartão postal pode ser lido por terceiros. Para ver o jogo de futebol na TV, eu aceito ser incomodado por comerciais nos intervalos.

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De uns tempos para cá, no entanto, os termos da equação têm mudado rapidamente. Para começar, cada vez mais dados sobre nós são concentrados em um número decrescente de mãos.

O uso dessas informações feito a nível comercial é opaco e o benefício dado em troca tem lembrado cada vez mais o tabagismo: uma pequena gratificação instantânea para uma necessidade antes inexistente, com custos desproporcionais no longo prazo.

Os termos da troca são descritos como um produto inevitável do avanço tecnológico e os resultados como benéficos para a sociedade em si mesmos, por meio de palavras como “compartilhar” ou “transparência”.

Mas não existem termos inevitáveis, nem benefícios obrigatórios, e sim uma agregação de escolhas individuais, sobre as quais os indivíduos precisam pensar mais.

Feliz aniversário a todos, seja no dia que for.


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