Nuvem já era, a onda agora é o Edge

Nuvem já era, a onda agora é o Edge

O Capri é um restaurante que serve galeto em São Leopoldo, minha cidade natal na região metropolitana de Porto Alegre. Ele fica perto da BR-116, na vizinhança de uma loja de piscinas, uma revenda de carros usados e de um clube de swing de casais.

Os vizinhos diversificados e a estrada movimentada são acontecimento recentes na vida do Capri. O restaurante já está lá há mais de 50 anos, tendo passado por algumas gerações da mesma família. Ninguém mexeu muito no lugar.

O Capri é um lugar meio sonolento. Nenhuma das mesas tem exatamente o mesmo tamanho ou a mesma quantidade de cadeiras, mas em compensação o cardápio é sempre igual. As pessoas falam baixo e os garçons raramente fazem algum movimento desnecessário.

Quando eu vou lá (o que acontece menos do que deveria), eu gosto de sentar logo na entrada, de onde é possível ver umas duas dezenas de relógios pendurados numa parede.

Cerca de um terço deles não funciona, outro terço está atrasado ou adiantado e o terço restante está mais ou menos na hora certa. É difícil saber qual é qual assim à primeira vista. Um relógio se parece com o outro, no final das contas.

É fácil se perder em pensamentos dentro do Capri. Outro dia, eu estava olhando alguns relógios de pêndulo fazendo seu trabalho de ir e vir, quando comecei a pensar sobre como algumas pessoas estão dizendo que cloud computing já era e a onda agora é edge computing.

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Como assim, cloud computing já era?

É difícil apontar exatamente como essas coisas começam, mas um palpite tão bom como outro qualquer é um podcast intitulado “The End of Cloud Computing” (traduzindo: “O Fim da Computação em Nuvem”), feito por Peter Levine, um dos sócios do fundo de investimento Andreessen Horowitz.

Com o estilo casual que se espera no Vale do Silício, Levine explica sua regra para pensar fora da caixa e prever o futuro: tire da cena algo que é importante hoje e tente encontrar outra coisa para colocar no lugar.

Assim, você se obriga a deixar de pensar de forma sequencial, com A levando a B, que inevitavelmente leva a C, D, E, F, G… Bom, vocês entendem onde eu quero chegar.

“É a regra Forrest Gump de investimentos, tão simples que é quase estúpido”, resume Levine. Não se deixem enganar. Como se diz no interior do Rio Grande do Sul, Levine de bobo só tem a cara e o jeito de andar.

O Andreessen Horowitz é um dos fundos mais respeitados do Vale, com um capital de US$ 1,2 bilhão e investimentos em momentos chave no Facebook, AirBnb, Twitter e outros.

Aplicando a regra “Forrest Gump”, Levine tentou visualizar de onde poderia vir o fim da hegemonia atual da computação em nuvem, a partir do papel central dos smartphones nesse contexto.

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Durante a maior parte do tempo de uso de um smartphone, o usuário dá o input de alguns dados, e um grande serviço central, seja no Google, Facebook ou no Tinder, dá uma resposta. Pouca coisa acontece na ponta, muito acontece no centro.

Levine tentou pensar num cenário no qual os smartphones tivessem a capacidade de processamento necessária para desempenhar mais tarefas, mas essa linha de raciocínio não foi muito longe, provavelmente, por não fazer nenhum sentido.

A ideia do centro e da periferia, como uma forma de pensar o panorama da computação, no entanto, é uma abordagem sólida. É possível ver toda a história do desenvolvimento da informática como um movimento pendular entre paradigmas centralizados e descentralizados.

Do surgimento da computação como uma realidade comercial, na década de 1950, até o final dos anos 70, o paradigma era centralizado, com grandes máquinas como os mainframes no centro.

Levine faz uma conta de padeiro, estimando que no auge existiam 10 mil máquinas desse tipo no mundo, com mil pessoas tendo acesso a cada uma delas. Toda uma era da computação era assunto de 10 milhões de pessoas. Um clube exclusivo, servido por um equipamento todo poderoso. Foi a era dourada da IBM.

Entre os anos 80 e 90, com a ascensão dos computadores pessoais, uma parte do processamento veio para as pontas, com as aplicações instaladas em outras máquinas. É a chamada arquitetura cliente-servidor.

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Um computador em cada mesa de trabalho, um computador em cada casa, todos rodando Windows. A empresa icônica dessa era é a Microsoft, dona do sistema operacional que definiu a experiência de uso do PC, dos quais existem hoje cerca de 2 bilhões por aí.

A partir do meio dos anos 2000, o pêndulo começou a voltar. O paradigma voltou a ser grandes quantidades de poder computacional bruto, seja para oferecer processamento ou aplicações. A Amazon Web Services está próxima de virar o mainframe do mundo.

Os PCs se tornaram um mercado estagnado e o objeto de desejo dos consumidores passou a ser o smartphone, os quais, hoje em dia, já existem em número superior aos PCs, e, em muitos países em desenvolvimento, são a porta de entrada no universo da Internet.

A moda do momento é o edge computing

Todas essas eras são respostas diferentes dentro das capacidades técnicas de cada época para atender as necessidades de um usuário humano. As pessoas, no entanto, estão com os seus dias contados como o centro da ação: o futuro é das coisas.

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Já não são apenas celulares. O mundo está ficando cheio de outros atores com capacidade de gerar dados e necessidade de processamento, como drones e todo tipo de máquinas conectadas. Eles já são hoje 20 bilhões, com potencial para chegar a 75 bilhões até 2025.

A estrela desse novo mundo é o carro autônomo. As estimativas são que, para andar sem um motorista na rua, um automóvel tenha que gerar algo como 25 gigabytes de dados por hora. Um volume hoje só alcançado por alguns poucos adolescentes em um dia muito inspirado no Instagram, SnapChat ou seja lá o que os jovens andam fazendo no lugar de arrumar a própria cama.

Esse volume de informação é 30 vezes mais do que um feed de vídeo gerado por uma câmera de alta resolução (outra coisa, aliás, que existe em cada vez maior quantidade por aí).

Não é viável mandar todos esses dados para serem processados em algum lugar. Além da conta de transferir, armazenar e processar tudo ser muito alta, no meio tempo até o carro receber a informação do que fazer de volta, ele já pode ter atropelado quatro velhinhas.

De maneira menos dramática, o processamento local dos dados, conhecido no jargão como “edge computing”, é crítico também para as máquinas cujo desempenho na linha de montagem pode ser corrigido em tempo real, assim como equipamentos médicos de missão crítica instalados dentro do corpo de alguém.

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Isso tudo quer dizer que a computação em nuvem vai acabar? É claro que não. A própria apresentação de Levine não diz isso. Títulos chamativos são uma forma de chamar a atenção. Mais ou menos como fazer longas introduções sobre restaurantes familiares italianos em posts.

Assim como acontece no estudo da história em geral, a definição de ciclos perfeitamente separados é um exercício de uma realidade bem mais confusa na prática. A IBM ainda lança mainframes, o mundo está cheio de PCs e certamente os grandes data centers da AWS (Amazon Web Services) seguirão por aí.

Mesmo no novo universo de coisas distribuídas, os grandes centros de processamento de dados seguirão tendo um papel, numa era não muito diferente da era cliente – servidor.

Os sistemas de inteligência artificial que vão dirigir carros por aí serão treinados dentro de simuladores na nuvem, os quais serão retroalimentados por uma parte dos dados coletados pela frota na rua.

A disputa entre os players será por protagonismo. Especuladores profissionais comentam que um dos motivos que pode ter levado a AWS a comprar a Whole Foods, em um negócio de US$ 14 bilhões que deixou muita gente coçando a cabeça, foi justamente ter acesso a muitos locais diferentes nos quais fosse possível colocar máquinas mais próximas dos clientes.

As empresas mais focadas em hardware com HP e Dell também podem ser revigoradas pela demanda de equipamentos. As empresas de automação industrial, que no final das contas são as que entendem de coisas, também podem ter um papel, assim como players que ainda nem existem.

O panorama do setor de tecnologia, às vezes, pode lembrar um pouco aquela parede de relógios do Capri: mais interessante do que tentar descobrir qual deles está com a hora certa é apreciar o conjunto da obra.

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